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Poema

no verso desloca-se a distância
reflexo ao reverso
e raio refratado:

o poema é um espelho

alude e ilude
circula o dobro de sangue
pra caminhar no próximo dia seguinte


(sem título)

já não quero mais tenta-las
as palavras não são deusas
que tudo resolvem e tudo nomeiam
e tudo pensam traduzir

de certas coisas não podem dar conta
as palavras não servem para consolo
ou curativo a dores quentes
isso é atributo de outra linguagem,
de léxicos difusos,
que não cabem em um livro de infinitas páginas

quem sabe de consolo é o gesto bem feito
a vitamina bruta, sem aditivos
que alimenta a carne do espírito
é possível pegar os gestos
mesmo quando abstratos.
podemos pegar as palavras?

palavras só servem para os poemas
e para os avisos, que para nada servem
incapazes de olhar o grito singelo das coisas profundas
a morte, por um acaso, se queda em silêncio à toa?
já se viu choro precisar de nomes?
por que acha que o beijo também tampa a boca?

as evidências não mentem
o verbo está fora da gramática:
reside a saliva que se faz suor
e reside o suor que as engula

as palavras não prestam
que fujam todas para os poemas
e que fiquem por lá, submissas ao diálogo

não mais pedirei perdão por algum silêncio
apenas que o aceite
pois ele é denso
e sério.



Esconderijo

(a Danilo Lago)

me esfarelo em versos
preso a uma cabeça baixa,
planejo rebeliões
mais verdadeiras que os meus fatos
mas algemado ao lamento dos deuses,
me esfarelo em versos
mais verdadeiros que os Lagos ainda nunca mergulhados.

eu queria atravessar a rua despido de todos os pudores
levantar minha foice
rasgar todas as verdades vestidas de terno
porque são Mentiras
e fazer chover todas as mentiras de minhas neblinas
porque são Verdades.

se guardo algo para mim
se tenho histórias para o mundo
tenho apenas um livro aberto
e ele quem vira as páginas de meu rosto
minha esperança é um sorriso irônico
mas antes fosse doce a ironia
meus sorrisos estão enroscados
e os meus sorrisos, antes eles fossem meus.
       
me esfarelo em versos
quem encontrar os restos
os jogará no lixo da cozinha
junto a poetas esfarelados,
ou servirá como alimento
aos filhos brigados com a sorte?
   
depois que me apagar por completo,
a timidez ainda será a herdeira de minha morte?


Fagia

O poeta é alguém que come muito
suga o sal da sua viagem
o poeta não tem frescura
todo o mundo o alimenta
come o carinho das flores
também das carnes
chupa os ossos, do ofício
come a dor dos indigentes
e o ruído das pedras
sente indigestões,
sempre digeridas
o poeta não tem etiqueta
come sempre com as mãos
e com aquilo que está dentro dos olhos
e que ainda não nomearam.

O poeta é mal-educado
come e não lava a louça
lhe interessa a substância
o poeta é um teimoso
não bebe dois litros de água por dia
não come de três em três horas
não mede as colheres de sopa ao cozinhar
ele improvisa os temperos
degusta possibilidades
chupa a seiva da palavra
come da fruta
cospe a semente na terra surrada.

O poeta come a surra da terra
e come o enterro dos mouros
e bebe o suco do sangue
e o poeta queima: :o fogo da guerra
come a lambida do cão no calo do homem
chuta as pedras no caminho
ou as toma para colecionar
o poeta come o semblante da doença
come tudo o que pode e não toma remédio
ainda que saiba de sua úlcera
o poeta tem sistema intestinal complexo
nem grosso nem delgado
seu intestino é bruto
cheio de pregas a se resolver.

o poeta atenta à sua careta:
– É azia?
– Poesia.



Tamanho do Mundo

palavras em fuga
da impotência do mundo
encontram refúgio
no quintal do poeta

vasto como a noite
que reside os poemas
que serão ainda escritos
a celebrar segredos.

não há portões
não há telhados
apenas a terra
à espera do espanto

se espreitam no estreito
na fresta dos barulhos
e na câmera lenta
do vôo dos passos.

o mundo escondido das coisas
este o quintal do poeta
onde não há paredes
apenas janelas com visto pro espaço

para atravessar o verbo
só é preciso três atos:
colecionar detalhes
focalizar milagres
e descobrir silêncios.



Vacina

Do carvão ao diamante
Do lado de dentro da casca
É no recheio da pele
Que o poema me vacina

Ainda que me exponha ao vírus,
que faça cura com veneno,
explora e limpa minha doença
e das futuras me previne

O poema é meu critério:
Finca, e contamina meu sangue
Desinfetando as minhas guerras
Me agride desde a ponta da seringa

Ele me sobrevive às dores quentes
e antes mesmo que o procure

O poema me interpreta